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PRÍON: UM SER QUASE VIVO E RESISTENTE À ESTERILIZAÇÃO

Por: Dra Lusiane Borges

Até pouco tempo cientistas acreditavam que os vírus, responsáveis por seis em cada dez males em plantas e animais, eram os agentes infecciosos com estrutura mais simples. Afinal, um vírus se resume a uma única molécula de material genético, RNA ou DNA, geralmente revestida por uma membrana.

 

Até então a ciência entendia que nada poderia ser mais rudimentar do que isso. Ledo engano.

Os príons são partículas de proteína, ou seja, não contêm sequer material genético. Resumindo, não têm vida. Ainda assim, são capazes de invadir os neurônios cerebrais, atrapalhar os comandos de seu núcleo e, a partir daí, detonar os maiores estragos. 

A descoberta de que uma proteína, sem DNA ou RNA, consegue provocar uma infecção obrigou pesquisadores a rever uma série de conceitos da Biologia.

 

Há cerca 20 anos, os cientistas começaram a prestar atenção a um grupo de doenças degenerativas do sistema nervoso, chamadas encefalopatias espongiformes, que ocorrem tanto em bichos como em seres humanos. Nelas, as células do cérebro se deformam e, depois, começam a desaparecer. A questão é que seu agente infeccioso nunca ficou muito claro. Centenas de testes mostravam que não era uma bactéria, um fungo, um vírus, enfim, não era nada conhecido.

 

Esse agente, culpado e misterioso, terminou batizado com o nome de PRÍON. A palavra príon designa, simplesmente,  uma forma ou espécie de agente transmissível que a ciência ainda não conseguiu identificar.

Nos últimos 15 anos, aceita-se que o  príon é uma partícula de proteína que transmite doença.

 

Um vírus sempre carrega material genético – DNA ou RNA. Mas agora, temos diante de nós um agente transmissível sem bagagem hereditária. É a primeira vez que se observa esse fato em toda a história da Ciência.

Há cerca de 15 anos, quando cientistas dos Estados Unidos conseguiram purificar uma proteína extraída das células de animais doentes, foi localizado um gene que poderia ser o fabricante da proteína. Ela existe em diversas espécies de aves e mamíferos, incluindo o homem, e surpreendentemente também nos organismos sadios.

 

A teoria é de que sua molécula pode mudar de conformação e, só quando isso acontece, ela causa doenças.  Até hoje se sabe exatamente em que consiste essa alteração, do ponto de vista químico. Mas observa-se que, no cérebro de pessoas contaminadas, a molécula fica resistente à protease, uma enzima capaz de quebrá-la.

 

Quando o neurônio de uma pessoa sadia produz essa proteína, ela vai direto para a superfície de sua membrana. Mas, na forma modificada, resistente à enzima, a proteína permanece no interior da célula nervosa. Isso provavelmente interfere em seu funcionamento e, com o passar do tempo, o neurônio afetado tende a morrer.

 

Tipos de Encefalopatias Espongiforme:

Hereditário -  há famílias com uma alta incidência do problema e, nos doentes, aparecem mutações justamente nos genes associados aos príons.

 

Nos seres humanos, porém, existem ainda dois outros tipos de doenças degenerativas provocadas por príons que não são herdadas de pai para filho, ou seja, uma proteína modificada consegue entrar na circulação sangüínea de um organismo sadio, ela pode modificar as moléculas normais, presentes no cérebro.

 

Muitas vezes, os príons são transmitidos por manipulações clínicas: o médico vai tratar o paciente e, passado algum tempo, ele próprio fica doente. Isso faz sentido, porque o príon é extremamente resistente à esterilização. Ele não é exterminado mesmo quando os instrumentos são aquecidos a 120 graus Celsius, que é a temperatura média comumente usada no processo de esterilização.

 

Há também episódios de transmissão por transplantes. Sem contar casos esporádicos de transmissão por hormônio do crescimento, substância que costuma ser extraída de cadáveres. Em geral, são necessárias entre trinta e cinqüenta doações para se obter uma dose do hormônio; se uma delas tem a proteína modificada, já é suficiente para contaminar toda aquela amostra. Entre 1982 e 85, foram registrados cerca de vinte casos, no mundo inteiro, em que a transmissão foi dessa maneira.

 

Todos esses tipos de doenças degenerativas provocadas por príons levam à demência. Mas os primeiros sintomas costumam ser bem diferentes. Há casos, identificados há cerca de três anos, em que tudo começa com terríveis crises de insônia. No entanto, é bom esclarecer que as doenças provocadas por príons são raríssimas. Elas despertam um grande interesse na comunidade científica pelo fato de o agente patológico ser totalmente inusitado e não pela sua incidência.

 

O animal sem o gene dessa proteína suspeita é resistente à doença. Não adianta infectá-lo com sangue contaminado, pois  seu organismo não leva adiante a produção de príons. Isso sustenta a hipótese de que a partícula de proteína alterada induz o gene a produzir outras moléculas defeituosas como ela. 

 

Ainda há muito que estudar e descobrir sobre os príons. A pesquisa científica está aí para elucidar todos os mistérios da vida, ou quase vida.

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Biomédica e Especialista em Microbiologia - UNIFESP; Cirurgiã-dentista – UMESP, São Paulo.Pós-Graduada em Epidemiologia, Prevenção e Controle de Infecção – UNIFESP/EPM; MBA em Esterilização – INESP, São Paulo; Docente do Centro de Pós-Graduação em Saúde do Hospital Albert Einstein desde 2010. Coordenadora dos Cursos de Auxiliar e Técnicos e Saúde Bucal – APCD e ABO desde 2001; Autora do Livro “ASB e TSB Formação e Prática da Equipe Auxiliar”, Ed Elsevier,2014, Representante da OSAP (Organization for Safety, Asepsis and Prevention) - EUA no Brasil desde 2009 e Coordenadora Científica da FOLA (Federação Odontológica Latino-americana) 2015-2021.