O estudo da decomposição, fundamental para a ciência forense e a tafonomia (o estudo de como os organismos mortos se tornam fósseis), teve seu início com experimentos observando a putrefação de porcos em ambientes naturais.
Posteriormente, o campo evoluiu com a criação das “Fazendas de Corpos” (ou centros de pesquisa em antropologia forense). Estas instalações estudam a decomposição de doadores humanos. A primeira delas, o Centro de Antropologia Forense da Universidade do Tennessee, foi inaugurada na década de 1970. Atualmente, existem oito nos Estados Unidos e mais em outros países.
A lacuna no conhecimento sobre répteis
Embora a pesquisa em decomposição de mamíferos seja extensa, há uma lacuna significativa no conhecimento sobre como os répteis se decompõem. Cientistas como Drumheller-Horton apontam que qualquer hipótese sobre a decomposição de répteis — incluindo dinossauros — é primariamente baseada em estudos com mamíferos, o que é problemático, pois mamíferos e répteis não são biologicamente idênticos.
Esse foco restrito historicamente levou muitos cientistas a presumir que tecidos moles (como sangue, músculos e pele) se degradavam muito rapidamente para serem preservados durante a fossilização.
A preservação de tecido mole em fósseis
A visão de que o tecido mole não se preservava foi desafiada em 2005, quando a paleontóloga Mary Schweitzer, da Universidade Estadual da Carolina do Norte, relatou a identificação de vasos sanguíneos em um fóssil de T. rex.
Essa descoberta impulsionou a busca por outros tecidos moles preservados e aumentou o interesse científico em como eles se modificam durante a fossilização.
Ainda hoje, na paleontologia, as partes duras (ossos) são as mais comumente encontradas. A pesquisa frequentemente se inicia com elas, em vez de analisar a interação do tecido mole com a parte dura.
O experimento com teiús em decomposição
Para preencher essa lacuna, o experimento de Drumheller-Horton com lagartos teiús em decomposição explora a questão de uma perspectiva diferente: rastrear as mudanças em todos os tecidos (incluindo o mole) à medida que os répteis mortos se decompõem. Fazer isso pode fornecer pistas cruciais sobre como o tecido mole conseguiu se preservar em fósseis antigos.
A própria Mary Schweitzer considera experimentos como a “fazenda de corpos de teiús” essenciais. Ela observa que há múltiplos fatores em jogo que não podem ser testados no registro fóssil, mas que podem ser explorados em um experimento em tempo real.
A conexão com a tafonomia de dinossauros
A incógnita da decomposição de répteis tornou-se um obstáculo para Drumheller-Horton em 2017. Embora a maior parte de sua carreira científica tenha se concentrado na tafonomia — o estudo de como os seres mortos se transformam em fósseis — e em desvendar padrões de mordidas em fósseis para reconstruir cadeias alimentares, ela precisava de um entendimento mais profundo da decomposição.
Em 2017, ela recebeu um convite inesperado do paleontólogo Clint Boyd para trabalhar em um projeto envolvendo Dakota, um dinossauro bico de pato notavelmente bem preservado (Edmontosaurus).
O fóssil de Dakota, encontrado na Formação Hell Creek, em Dakota do Norte, é considerado uma rara “múmia de dinossauro”, pois preservou impressões fossilizadas de pele e, surpreendentemente, unhas e marcas de mordida na cauda e no braço. A presença excepcional de tecido mole fez com que o mistério de sua decomposição e preservação se tornasse central, impulsionando a necessidade de pesquisas comparativas com répteis modernos.
