Corpos celestes como Bennu e Ryugu são ricos em moléculas orgânicas simples, as mesmas encontradas em organismos vivos na Terra. Recentemente, cientistas da Nasa detectaram o triptofano em amostras de Bennu, um aminoácido essencial para a vida que nunca havia sido registrado em materiais vindos do espaço. Essa descoberta reforça a ideia de que os blocos fundamentais da biologia podem se formar em diversas regiões do sistema solar.
A análise detalhada identificou 15 dos 20 aminoácidos que compõem as proteínas, além das cinco bases moleculares que formam o código do DNA. Outra equipe de pesquisadores também confirmou a presença de ribose, um tipo de açúcar fundamental para a estrutura do RNA. Essas evidências sugerem que a geoquímica interna de asteroides antigos foi capaz de produzir as matérias-primas necessárias para o surgimento de sistemas biológicos complexos.
Segundo especialistas como Angel Mojarro, a abundância desses materiais em diferentes partes do cosmos indica uma universalidade química. Se a vida existir em outros planetas, é provável que ela compartilhe semelhanças estruturais com a biologia terrestre, dado que as “peças” disponíveis no universo são as mesmas. Isso coloca os asteroides como prováveis transportadores desses componentes essenciais para mundos em formação, incluindo a nossa Terra primitiva.
A hipótese do RNA e a química orgânica espacial
O RNA desempenha um papel central nas teorias sobre o início da vida, com a hipótese de que as primeiras formas de vida eram compostas exclusivamente por ele. Como o RNA atua tanto na codificação genética quanto na aceleração de reações químicas, sua presença em asteroides é um marco científico. Yoshihiro Furukawa, líder de estudos sobre açúcares espaciais, destaca que essa molécula pode ter precedido o surgimento do DNA e das proteínas.
Embora a Terra tenha sido bombardeada por essas rochas ricas em nutrientes biológicos, a simples presença de moléculas orgânicas não explica tudo. Para que a vida surgisse, esses ingredientes precisariam estar concentrados em ambientes específicos que permitissem sua organização em sistemas autorreplicantes. O grande mistério atual da ciência não é a falta de ingredientes, mas o processo exato que transforma a geologia em biologia.
O estudo das amostras de Bennu oferece um vislumbre único de um ambiente puramente geológico, livre de influências biológicas prévias. Cientistas comparam as condições químicas desses asteroides com as fontes hidrotermais do fundo do mar na Terra primitiva. Ao entender como as rochas dão origem a compostos orgânicos, os pesquisadores podem testar novas ideias sobre como a química inanimada deu o salto definitivo para a vida.
