O Projeto Icarus é uma ambiciosa iniciativa de monitoramento da vida selvagem, que utiliza tecnologia espacial para rastrear o movimento e a saúde de animais ao redor do planeta. Sua primeira fase começou com uma antena instalada a bordo da Estação Espacial Internacional (EEI), um feito que levou oito anos para ser concluído. Lançada em 2020, essa iteração inicial da antena de Wikelski demonstrou o potencial do projeto, observando centenas de animais de 15 espécies diferentes em apenas um ano.
Durante esse período, cientistas puderam observar migrações surpreendentes, como a de maçaricos-de-bico-fino, que voam sem parar da América Central até o Texas, e a de cucos, capazes de cruzar o Oceano Índico da Índia à África. Tais descobertas ressaltaram a utilidade da visão espacial para entender o comportamento animal em grande escala.
Entretanto, o futuro do projeto sofreu uma interrupção inesperada em 2022. Devido à invasão da Ucrânia pela Rússia, o programa espacial colaborativo entre a Alemanha e a Rússia que apoiava o Icarus na EEI foi encerrado. Wikelski, um dos responsáveis pelo projeto, comentou que, apesar da guerra ser uma situação “horrível”, ela impulsionou os engenheiros a desenvolverem um sistema ainda melhor.
A evolução tecnológica: do monstro ao CubeSat
A necessidade de um novo começo levou a uma significativa evolução tecnológica. Wikelski descreveu a antena original como um “monstro” devido ao seu tamanho. O novo sistema Icarus representa um avanço em miniaturização, medindo agora apenas 10 centímetros de comprimento.
Este sistema aprimorado está instalado em um satélite de pequenas dimensões, apropriadamente nomeado CubeSat, que Wikelski compara ao tamanho de uma geladeira europeia. Ele projeta que os futuros satélites serão ainda menores, chegando ao tamanho de uma caixa de sapatos.
Atualmente, a equipe está em uma fase de testes para garantir que o novo satélite se mantenha em uma órbita terrestre viável e se comunique eficientemente com os computadores em terra. O funcionamento é comparado a um “scanner linear”, percorrendo a Terra de polo a polo e “escaneando todos os cantos em aproximadamente um dia”.
Etiquetas e dados cruciais para a vida selvagem
O sucesso do Icarus depende de pequenas etiquetas de rastreamento que são fixadas nos animais, enviando dados para os satélites em órbita. Depois que a fase de testes for concluída e a rede de satélites estiver estabelecida, a equipe dará início ao trabalho meticuloso de equipar novos animais com esses dispositivos.
Os dispositivos de energia solar utilizados, que enviam informações para o Projeto Icarus, pesam cerca de 3 a 4 gramas, mas uma versão ainda mais leve, de apenas 1 grama – o peso de um clipe de papel – está em desenvolvimento.
As etiquetas não se limitam a registrar as coordenadas de GPS dos animais. Elas também monitoram a saúde, detectando a temperatura corporal e as condições ambientais ao redor, como umidade, pressão atmosférica e aceleração. Essa riqueza de dados permite uma compreensão inédita de como os animais interagem com seus ecossistemas e como a saúde deles pode ser afetada por mudanças ambientais.
O futuro da monitoração animal pelo Icarus
Se a fase de testes correr conforme o planejado, a equipe, com financiamento da National Geographic Society, planeja lançar outro satélite na primavera. O objetivo final é ter seis satélites Icarus em órbita monitorando a vida animal até o ano de 2027.
Com essa rede completa, o Projeto Icarus terá a capacidade de monitorar o movimento e as condições de saúde de uma vasta população de animais, abrindo novas fronteiras para a ecologia e conservação.
